Comunicação apresentada, durante o XV Bienal do Livro de São Paulo, na mesa-redonda "A Leitura como Processo Integrador" (mai.1998), e no "II Seminário de LIJ" do PROLER (Ilhéus BA, set. 1998).



A Escritura & os Novos Meios
de Produção de Linguagem

Maria Zilda da Cunha



1. Mundo contemporâneo

           Como bem diz Lúcia Santaella (1981: 32), não é novidade para ninguém, nem mesmo para os mais desatentos, o processo de transformação pelo qual vem passando a literatura, as artes em geral, as ciências, as técnicas e as linguagens que falamos e que falam por/de nós. Enquanto seres viventes, queiramos ou não, somos participantes da revolução eletro-eletrônica-digital, e, dessa forma, estamos envolvidos por um universo visual e sonoro das linguagens televisiva, fílmica, radiofônica, dos vídeos-clips, da publicidade, das histórias em quadrinhos, dos celulares, dos jogos eletrônicos, do vídeo texto, do computador, etc., etc..
           Se antes, tínhamos uma sociedade predominantemente verbal, calcada na palavra -- oral ou impressa --, no inteligível, no racional, HOJE, temos uma sociedade audiovisual, também calcada nas sensações. As tecnologias mais recentes que disseminam as informações, o caráter interativo, bidimensional dos universos domésticos de publicação, novos meios de produção de imagens, novos alfabetos de luzes da computação gráfica, cada vez mais alteram e redimensionam, em bases radicalmente inéditas, a nossa noção de escritura.
           Com o aparecimento do alfabeto e posteriormente da imprensa, "os modos de conhecimento teóricos e hermenêuticos passaram a prevalecer", impondo-se "uma ecologia cognitiva largamente estruturada pela escrita (num suporte fixo)", como afirma Pierre Lévy (1996). Hoje estamos em vias de, ou já se impôs, uma nova ecologia cognitiva diante das transformações, pelas quais vimos passando, das novas formas de escritura e de seus suportes dinâmicos.
           Perdendo sua afinidade com as idéias imutáveis que, supostamente, dominariam o mundo sensível, o texto torna-se hoje análogo ao universo de processos ao qual se mistura... Somos uma sociedade sem fios conectada através de informações, via uma rede urdida interplanetária de telefonia e de sensores óticos interligando e formando um ciberespaço (cyberespace). Co-habitamos o universo, hoje, com seres sintéticos, em outras palavras, com sínteses sígnicas. Ou, como diz Pierre Lévy (1996):

"Trata-se de uma multidão de signo-agentes em interação, carregados de valores, investindo com sua energia rede móveis e paisagens mutáveis... eis aí o nó da moral... vivendo, agindo, pensando, tecemos o tecido mesmo da vida dos outros"

           Diante desse mundo fantástico, como fica o livro, a leitura, a escrita, a criança, e o enredamento da educação escolar com a literatura infantil?



2. Trilhas do códex à tela eletrônica

           O livro guarda, em sua história, as aventuras da escrita em sua trajetória do códex à tela eletrônica. Caminhos pelos quais a escritura sofre grandes transformações em sua natureza e função, o que modifica, consequentemente, as relações do homem com o livro. Conforme sentencia Roger Chartier (1994: 100-1), ler sobre uma tela não é ler um códex; a representação dos textos modifica totalmente sua condição pois substitui a materialidade do livro pela imaterialidade de textos sem lugar específico:


"(...) às relações de contiguidade estabelecidas no objeto impresso ela opõe a livre composição de fragmentos indefinidamente manipuláveis; à captura imediata da totalidade da obra, tornada visível pelo objeto que a contém, ela faz suceder a navegação de longo curso entre arquipélagos textuais sem margens nem limites".


           Pierre Lévy (1996) também se refere aos textos multimídias, apontando as características desses textos móveis, caleidoscópios que giram, que se dobram e se desdobram à vontade do leitor. Comentando a profunda mutação por que passa o mundo do texto, pergunta se o aparecimento desse suporte dinâmico, que reúne e distribui os mais diversos textos on line, não suscitaria a invenção de novos sistemas de escrita, que explorariam melhor as novas potencialidades. E prossegue: "Essa idéia é provavelmente muita errônea," concluindo que "longe de aniquilar o texto, a virtualização parece fazê-lo coincidir com sua essência desvelada... é como se a aventura do texto começasse realmente..." (Lévy, 1996: 49). Pois segundo ele, o texto, desde suas origens nas mais remotas civilizações, é um objeto virtual, abstrato, independente de um suporte específico -- uma entidade virtual que se atualiza em múltiplas versões.
           A desmaterialização dos suportes, o texto eletrônico, também, pela primeira vez, parece superar uma contradição que, há muito, atormenta o homem ocidental: reunir todos os textos e todos os livros já escritos -- experimentando aquela "felicidade extravagante" da qual fala Borges em A Biblioteca de Babel -- e, deparar-se com a decepcionante condição de, por maiores que sejam as coleções guardadas entre monumentais muros, constituírem essas, apenas a imagem de uma parcela lacunar do saber universal. Hoje, a humanidade possui uma grande biblioteca sem muros... Torna-se possível o acesso, a qualquer distância no tempo e no espaço, a toda e qualquer informação: basta conectar-se à rede informatizada que assegura a distribuição de documentos. No entanto, acreditamos como Chartier (1994: 107) que "apenas, preservando a inteligência da cultura do códex, poderemos gozar a 'felicidade extravagante' prometida pela tela".
           Lembremos que a morte anunciada da escrita não aconteceu: se houve apostas de que a imagem e os meios eletrônicos ameaçariam sua importância e utilização, os últimos trinta anos apontaram outras direções e as conseqüências, que serão provavelmente mais revolucionárias do que a empreendida pelo invento de Gutenberg... estamos longe de imaginar. O que se pode adiantar é que, como diz Santaella (1996), REVIGORA-SE A ESCRITURA, isto é, redimensiona-se a concepção do escrito. O próprio código genético (DNA), por exemplo, não deixa de ser uma forma de escrita. Estão ampliadas as dimensões da linguagem, ultrapassando as fronteiras do verbal. E a escrita nunca foi tão importante como nos dias atuais. Daí podermos pensar que o mesmo ocorre com o livro. Pois, se é inegável que todo e qualquer novo meio de produção de processos comunicativos acarreta novas formas de produção de leitura, novas formas e conteúdos de linguagem, novas formas de subjetividade, produzindo novas estruturas de pensamento, outras modalidades de apreensão e intelecção do mundo; modificações nos modos de viver e nas interações sociais, como já apontamos, também é verdade, que o nascimento de um novo meio não leva à morte, nem desintegra aquele que o precedeu. Sobre isso, assinala Santaella (1996: 140):


"A história nos tem demonstrado que a tendência dos meios não é a desintegração (e o vídeo texto é o exemplo mais flagrante disso), mas de criar sistemas integrais, interdependentes, de modo que um meio se alimenta do outro ao mesmo tempo que o retroalimenta".


           Podemos concluir que essas novas conquistas humanas, representantes da evolução do cérebro humano, índices de sua inteligência, não desclassificam o livro. As novas formas de linguagem não o anulam mas enredam-se nele, aliás, lêem-no. Lêem-no mediante outros signos, que atualizam também imagens, diagramas e metáforas que habitam o verbo, pulsando no seio da palavra.
           Portanto, nos dias atuais -- para enfrentar a discussão, a respeito do livro, da leitura, da escrita -- eliminamos de pronto a idéia de o livro, o texto escrito, ter hoje uma importância menor diante de outros meios. Aliás, defendemos a idéia de que as crianças devem se relacionar com textos longos, complexos e de boa qualidade. Entendemos, contudo, ser necessário: A) reconhecer que a fonte livresca não é mais a única forma de cultura, lazer e informação; B) ler essa gama de discursos se tecendo em intertextualidade, montando um mosaico, onde a palavra, entre outras vozes, constitui o mundo que precisamos decifrar.
           Sendo assim, entendemos ser necessário, para se alcançar um novo patamar de leitura e de escritura, quebrar o monopólio da interpretação, ultrapassar também a idéia de ser o livro tão somente composto de linguagem verbal e escrita. E aqui tocamos em aspectos relacionados ao livro de literatura infantil.



3. (A)ventura do livro de literatura infantil

           Torna-se cada vez mais evidente o intercâmbio de recursos, confederação de códigos e migração de linguagens, que transcorrem por esse suporte, entretecendo-se em diálogo intertextual -- um diálogo que lhe confere dinamicidade e plasticidade, transformando-o num exuberante espetáculo semiótico.
           É o OBJETO NOVO, segundo denominação sugerida por Lúcia P. Góes (1996: 19), "para os livros que apresentam uma Concentração de Linguagens de natureza vária e variada", concentração de matéria-prima de emoções, prazer, espírito lúdico, idéias, valores, sentimentos e pré-sentimentos que governam a vida, ou transfiguram a vida em Arte, através do verbal, do sonoro, do visual, dinamizando a imaginação criadora. "Encontro de linguagens, sem preconceito quanto ao suporte físico escolhido pelo seu autor" (Góes, 1997).
           Não podemos esquecer, inclusive, que "a operação de linguagem de um meio para outro implica em consciência tradutora capaz de perscrutar não apenas os meandros da natureza do novo suporte, seu potencial e limites, mas a partir disso, dar o salto qualitativo, isto é, passar de mera reprodução para a produção" (Plaza, 1987: 98). Em outras palavras, "traduzir com invenção pressupõe reinventar a forma, isto é, aumentar a informação estética." (ibidem).
           É, pois, a dimensão estética da literatura infantil que, longe de arremedos de texto, pode oferecer à criança a oportunidade de fruir a linguagem em seu maior grau possível -- conforme Ezra Pound, para quem o adensamento da palavra se faz pela projeção de imagens na retina mental, pela espessura sonora, pela dança do intelecto entre as palavras.
           Portanto, a nosso ver, a literatura oferece-se como o entrecruzamento de linguagens, um objeto estético. E conforme Palo e Oliveira (1986: 11),


"(...) o pensamento infantil é aquele que está sintonizado com esse pulsar... Leitura que segue trilhas, lança hipóteses, experimenta, duvida, num exercício de experimentação e descoberta. Como a vida."


           Assim, como bem expressa Maria dos Prazeres S. Mendes. (1994: 7):


"(...) mais do que pensar a Literatura Infanto Juvenil como gênero sustentado pelo receptor (que ao crescer a abandona), cabe-nos propor a boa literatura (sem outras adjetivações), repropondo a qualidade estética, com um dado de fruição, sem pré-juízos que a delimitem e confinem a uma camisa de força estabelecida pelo e no seu uso. Almejar a criança é, ao final, desejar a fruição de uma mente via criatividade e imaginação"




4. Enredamento da educação com a Literatura Infantil

           Arriscando algumas considerações, diríamos que, em primeiro lugar, faz-se necessário providenciarmos formas que nos possibilitem a leitura de múltiplas linguagens. "Quanto mais as linguagens se enriquecem e se estendem, maiores são as possibilidades de simular, imaginar, fazer imaginar um alhures ou uma alteridade" (Lévy, 1996: 72). Desse modo, em termos de ensino-aprendizagem é necessário "buscar as possíveis riquezas de entrecruzamentos entre elas" (Santaella, 1981), pois,


"ligada à emergência da linguagem, surge uma nova rapidez de aprendizagem, uma celeridade de pensamento inédita. A evolução cultural anda mais depressa que a evolução biológica. O próprio tempo bifurca-se em direção a temporalidades internas à linguagem: tempo da narrativa, ritmo endógeno da música ou da dança." (Lévy, 1996).


           Dissemos, também, que a literatura infantil, cada vez mais, comporta intercâmbio de códigos e linguagens. Por essas vias, podemos imaginar a importância desse material -- entre outros, jornal, propaganda, textos científicos, etc. -- , para o necessário ensino dos dias atuais. Acreditamos que a literatura destinada à criança pode corroborar com "a aprendizagem permanente, a navegação contínua num conhecimento que doravante se projete em primeiro plano" (Lévy,1996); que enfrente a(s) linguagem(s) como sistemas de signos: "signos não evocam apenas 'coisas ausentes' mas cenas, intrigas, séries completas de acontecimentos ligados uns aos outros" (Lévy, 1996: 72); que enfrente a complexidade e dinamicidade da cadeia semiótica do pensamento, do conhecimento.
           Em nosso ponto de vista, o texto literário é uma obra de linguagem eminentemente qualitativa, "como signo de algo, ela tem aquela grande função de que fala Peirce que é a de todos os signos artísticos: de generalizar sentimentos" (Pignatari, 1981) e, por esse aspecto, se relaciona com o diverso, ao mesmo tempo que se diferencia pelo seu caráter de gratuidade e permanência no tempo. São obras que, como aponta Ítalo Calvino, se "impõem como inesquecíveis". Quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidas, de fato, mais se revelam novas, inesperadas, inéditas. "Literatura é novidade que permanece novidade" (Pound, 1989/90: 33).
           São obras que se oferecem à contemplação estética. E mais:


"(...) contemplação estética não é contemplação beatificada ou abobada. Ao contrário é contemplação ativa. Há um fisgamento que nos atrai. Há um entretenimento, algo que nos cativa. Mas há também uma razão que borbulha junto com o sentimento. A suspensão do policiamento da racionalidade, a pura inocência dos sentidos é fundamental ao estado mental estético, mas isso não significa que a razão criativa não entre também em operação para compreender o sentimento." (Santaella, 1992b: 181)


           Logo, quando nos referimos à literatura infantil não procedemos à oposição criança/adulto, nos referimos a grande Literatura, lembrando mais uma vez Ezra Pound, a concentração de linguagens, e que atenda às exigências da criança, como lucidamente aponta Lúcia Pimentel Góes (1990). A palavra literária é palavra gorda, diz Góes (1996). Sim, gorda, grávida de sentidos, prenhe de significados possíveis, carnadura concreta de uma razoabilidade... Razoabilidade que, segundo Charles S. Peirce, é sinônimo de potencialidade da idéia, algo dinâmico, sempre em processo de materialização. "São potencialidades, formas que podem se corporificar em signos internos ou externos e mais importante, não exclusivamente simbólicos" (Santaella, 1992b: 181) Portanto, em crescimento contínuo, como a vida -- leitor/leitura, criança/livro buscando incessantemente o atributo do "admirável", ventre fecundo do ideal estético.
           Ao adotarmos tal ideal, empenhamo-nos eticamente nele. Utilizamo-nos da lógica para nos fornecer os meios do autocontrole crítico do pensamento a fim de atingi-lo. Controle que será possível pelo cultivo de hábitos de ação, pensamento e sentimento, modificando-os sempre que necessário. Se hábitos de ação e de pensamento podem ser alterados através de argumentos logicamente montados ou por bom senso, os hábitos de sentimento apenas se modificam na presença de situações que impulsionem sua regeneração, necessitam estar diante de uma corporeidade sensível em estado monádico. Assim, o ideal estético é nutrido pelo cultivo de hábitos de sentimento.
           Os produtos artísticos "de modo geral, têm como finalidade prioritária exatamente a regeneração da sensibilidade perceptiva, no intercâmbio que promovem entre razão, esforço e o sentimento" (Santaella, 1994:191). A literatura, como arte, encarna por excelência qualidades de sentimento e "formas de sabedoria, de um tipo que fala à sensibilidade, ao mesmo tempo que convida a razão a se integrar ludicamente ao sentir" (Santaella, 1994: 151). Desta forma constitui-se num privilegiado objeto estético, portanto em uma poderosa força para o crescimento da razoabilidade.
           Consideramos que esta concepção de literatura pode e deve estar presente no ambiente escolar. Por essas vias, entendemos fundamental o enredamento da escola, educação e literatura infantil.

           Enfim, após termos sobrevoado esta complexa paisagem, talvez um pouco vertiginosamente, passamos à segunda parte de nosso assunto, quando nos deteremos ligeiramente num objeto novo. Sonhamundo , obra de literatura infantil e juvenil, produto artístico, cujo suporte é aquele invento que, segundo Brecht, ninguém havia pedido -- o rádio. Rádio que também empresta seus códigos para a tradução, cruzamento e proliferação de linguagens.



5. Sonhamundo: notas e magias de um objeto novo

           Sonhamundo -- magia: verbo & música, "objeto novo", música clássica e literatura, espetáculo semiótico -- entrelaçando universos, revive obras em vertigem de ritmos, imagens e linguagens que se entretecem, reencarnando espaço-tempo. Tecido poético, rede tecida de verbo e música.
           Selecionamos, em primeiro lugar, de O Carnaval dos Animais, um pequeno fragmento do qual emergem, em sinuosas coreografias plásticas, uma saudação poética, consagrando o momento da coroação do Rei Leão:

Preso
Pula
Parte o fio...
Pérolas
Pequeninas
Pingam;
Pedrinhas de luar
em Pencas,
Pingentes
Penduradas nos
Penhascos
Penetrando mais e mais
na Penunbra
Profunda
e
Percorrendo
Perdidas como
Peregrinas Perenes
do Perigoso
Pélago
para Pesar
da Perfumada
e Perfeita
Peixe-Mulher...

GOÉS, Lúcia Pimentel. "O Carnaval dos Animais". Música de Camille Saint-Säens. São Paulo, Rádio USP FM, 1996. (Sonhamundo, ed. 3)


           Como é possível conferir, nas ondas do canto poético, delicados ícones sonoros pingam, respingam no interior do símbolo. As aliterações, a pulsação, o ritmo adensam o bailado invocante captado pela escrita, e, que permanece à espera de uma voz que reencarne a musicalidade, capaz de recriar também, no palco de nossas mentes, sua coreografia. Melopéia na classificação de E. Pound. Uma descrição -- "tentativa de traduzir, pelo verbal, caracteres qualitativos que os sentidos captam"; texto descritivo qualitativo, segundo a classificação de Lúcia Santaella (1980: 146-60), pois transformando o caráter linear da sintaxe verbal, cria "uma gestalt de relações inusitadas e acaba por recuperar, analogicamente (em termos concretos) qualidades físicas, sensíveis daquilo que é descrito" (idem: 153).
           Desses breves comentários, passamos a um convite: audição da obra. Afinal poesia e música, que em seus engendramentos aproximam-se, são feitas sobretudo para serem ouvidas. E quando se adensam no pensamento das formas, "junto ao som o ouvido passa a inteligir o movimento das estruturas: progressão, reversão, retrogração, espelhamentos, polaridades, a lógica interna das seqüências e das sobreposições, as figurações do ritmo." (Santaella, 1992) Esse universo que se manifesta nas formas audíveis ou visíveis, é um universo originário -- talidade de sentidos -- e se manifesta também nas formas de pensamento. Enfim, como já propôs Santaella (1992), poetas e músicos são diagramadores da linguagem.

           Passamos para mais um exemplo: Giselle, o balé fantástico composto por Adolphe Adam, cujo libreto original foi escrito por Vernoy de Saint-Georges, Théophile Gautier e Jean Corali. O texto deste balé, primeiramente intitulado Les Wilis, traz o mesmo tema romântico dos impedimentos amorosos e da intervenção sobrenatural que havia sido apresentado em outra peça: La Sylpphide. Giselle é a um só tempo, a sílfide teuto-francesa, a princesa dos contos de fadas, a Camila de Virgílio, a Odete do Lago dos Cisnes, a Galatéia de Pigmalião, a eterna Psiché.
           Conforme sabemos, narrar histórias de maneira linear, direcionando a leitura por uma via rigidamente cronológica, foi uma das mais fortes tendências do balé romântico do século XIX -- assim, o libreto entregue ao compositor também reservava tais características. Dessa forma, constitui-se num roteiro de ações cuja função é direcionar os acontecimentos, numa estrutura narrativa temporal linear.
           No entanto, como podemos conferir, na audição de Giselle , em sua versão para o rádio, após uma série de eventos que se encadeiam numa seqüência temporal sucessiva e de causalidade, há uma reversão do caráter lógico, da contiguidade, da lógica linear entre a seqüência dos acontecimentos, estabelecendo-se relações mais complexas; beirando o non sense, temos um texto narrativo qualitativo, segundo classificação de Lúcia Santaella (1980).
           No redemoinho de som-voz, verbo-música...
Mal consigo me lembrar do que aconteceu depois: mamãe falando da fraqueza do coração das moças, Bathilde encantada com a dança que danço, me dando um colar de presente, Hilarion chegando, espada na mão, Hilarion dizendo coisas... que Loys é um impostor, e Loys chegando, simples como sempre, Bathilde dizendo que ali vinha seu noivo, Loys chegando em suas roupas de sempre, Bathilde perguntando que roupas eram aquelas, Hilarion entregando a espada a Loys, Loys contando voz rouca, seu nome: Albrecht, Príncipe de Silésia... Loys, Hilarion, Bathilde, Albrecht, Bertha, perco a minha razão... perco a minha razão... a espada a dança a esperança meu coração minha mãe o meu príncipe o noivo de Bathilde Albrecht Loys Bathilde o colar o chão a flor a espada Albrecht Bertha minha mãe a espada meu coração a espada o céu o chão a espada a razão... a dança bem-me-quer mal-me-quer Hilarion minha aldeia minha vida minha alegria Loys Hilarion a espada meu coração Loys quem é você? quem é você?
SAGAE, Peter O'. "Giselle". Música de Adolphe Adam. São Paulo, Rádio USP FM, 1996. (Sonhamundo, ed. 11)


           Ao invés de "relações de contiguidade linear entre as seqüências do acontecimento, estabelecem-se relações mais complexas, ou seja, organizações paralelísticas (simetrias, gradações, antíteses) responsáveis por uma visão simultânea de visões de um mesmo evento" (Santaella, 1980: 155). O que se representa, não é o encadeamento de um evento, mas as "várias dimensões (visões) das ações de um evento" (ibidem). Desse modo, esse tipo de narrativa prima por representar qualidades dos acontecimentos, impressões fugidias do fluxo temporal.
           Música e poesia se enlaçam. E...

"Enquanto a música é um quase nada de um quase tudo, a poesia é um quase tudo de um quase nada. A música é som, só som, combinatória sonora na sua nudez; poesia é significado no extremo da sua espessura. A música não representa nada e, por não representar nada, pode representar tudo. A poesia por outro lado, trabalha com palavras (palavras, queira-se ou não, são entidades representativas). Ao carregar as palavras com um máximo de significação, a poesia quer representar tudo, mas, neste tudo, depara-se com os abismos do nada.

(UMBIGO DO SONHO/MUNDO)

O tudo parte do nada e retorna ao nada. Enquanto a música é um quase nada de um quase tudo, a poesia é um quase tudo de um quase nada." (Santaella, 1992: 108).



6. Nota final

           Ao intérprete (ouvinte/leitor), cabe lançar-se à obra, construir similaridades, estabelecer relações, sobrepor imagens, participar enfim de um jogo que sobretudo é lúdico. Ao professor, cabe a condução das crianças e jovens ao caminho da investigação: viagem rumo à linguagem(s) como parte da vida, senão ela própria, com os sinais de todos os tempos...



Parágrafo Aberto



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Maria Zilda da Cunha
Professora e psicopedagoga,
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP.


Bibliografia

:: CHARTIER, Roger. A ordem dos livros. Brasília: Universidade de Brasília, 1994. :: CUNHA, Maria Zilda. Criança e linguagem: um ensaio preliminar. São Paulo: PUC, Programa de Comunicação e Semiótica, dissertação de mestrado, 1997. :: GÓES, Lúcia Pimentel. A aventura da literatura para crianças. São Paulo: Melhoramentos, 1990. :: "Um olhar de descoberta. Leitura, teoria e prática." IN: Revista da Associação da Leitura do Brasil, nº 17. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991. :: Olhar de descoberta. São Paulo: Mercuryo, 1996. :: LÉVY, Pierre. O que é virtual. São Paulo: Editora 34, 1996. :: MENDES, Maria dos Prazeres Santos. Monteiro Lobato, Clarice Lispector, Lygia Bojunga: o estético em diálogo na literatura infanto-juvenil. São Paulo: PUC, Programa de Comunicação e Semiótica, tese de doutorado, 1994. :: PALO, Maria José et alii. Literatura infantil: voz de criança. São Paulo: Ática, 1986. :: PIGNATARI, Décio. Semiótica e literatura. São Paulo: Perspectiva, 1974. :: SANTAELLA, Lúcia. "Por uma classificação da linguagem escrita". IN: Produção de linguagem e ideologia. São Paulo: Cortez, 1980. :: "Entrevendo a literatura, interlendo um poema". IN: DeSignos 6, 1981. :: "Poesia e músi: frações, primas, variações". IN: Face, v.4, nº1. São Paulo: EDUC, 1992. :: A assinatura das coisas. Pierce e a literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1992(b). :: Estética de Platão a Pierce. São Paulo: Experimento, 1994. :: Cultura das mídias. (ed. rev. e ampliada) São Paulo: Experimento, 1996. :: PLAZA, Júlio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Cortez, 1987. :: Ideografia em videotexto. São Paulo: PUC, Programa de Comunicação e Semiótica, dissertação de mestrado, 1983. :: POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Cultrix, 1989/90. :: SAGAE, Peter O'. O Caracol do Ouvido: perspectivas do rádio para crianças. São Paulo, Depto. de Rádio e Televisão, TCC (Bacharelado), 1994. :: ZILOCCHI Domingues, Ana Maria. A imagem da narração, descrição, dissertação. São Paulo: PUC, Programa de Comunicação e Semiótica, dissertação de mestrado, 1987. ::

CUNHA, Maria Zilda. A escritura e os novos meios de produção de linguagem. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE LITERATURA INFANTIL E JUVENIL, XV Bienal Internacional do Livro de São Paulo, Câmara Brasileira do Livro, 1998. Anais.