Arte e raízes:
tradição e atualidade da cultura popular
Nereide Schilaro Santa Rosa


Fischer nos diz: "A arte pode elevar o homem de um estado de fragmentação a um estado de ser íntegro, total. A arte capacita o homem para compreender a realidade e o ajuda não só a suportá-la como a transformá-la, aumentando-lhe a determinação de torná-la mais humana e mais hospitaleira para a humanidade. A arte é uma realidade social. A sociedade precisa do artista, este supremo feiticeiro, e tem o direito de pedir-lhe que ele seja consciente de sua função social. Mesmo o mais subjetivo dos artistas trabalha em favor da sociedade. Pelo simples fato de descrever sentimentos, relações e condições que não haviam sido descritos anteriormente [...], representa um impulso na direção de uma nova comunidade cheia de diferenças e tensões, na qual a voz individual não se perde em uma vasta unissonância." (in A necessidade da arte, pp. 56-57)

           A função social da arte fica clara à medida que ela transforma e nos traz o conhecimento do mundo, não um conhecimento abstrato, mas afetivo e real. O artista percebe o mundo e cria formas sensíveis para interpretá-lo.

           Ao se aproximar da cultura popular, o artista serve de mediador entre o objeto bruto e a representação, entre o que observamos e sentimos com nossos sentidos e o pensamento. As imagens nos fazem pensar e tornar o mundo repleto de significados, alargando a sua abrangência. O artista atribui significados ao mundo real por meio de sua obra que é lida e compreendida pelos espectadores. Evidentemente que esses significados dependem de fatores e valores de determinada época. Os artistas podem buscar temas idênticos, no entanto o tratamento dado é transformado e representado de acordo com sua leitura e linguagem. A cor, o volume, o espaço, o peso, a luz permitem essa abrangência e dão condições ao artista elaborar sua produção. De qualquer forma, o "artista cria o que poderia ser". O meio, o suporte, as técnicas e estilos compõem a linguagem da obra, o projeto do artista. O artista cria, então, obras de arte que são símbolos, atribuindo significados a fatos, imagens, formas - as quais muitas vezes, são inspirados na cultura popular.

           "Cultura popular é aquela criada pelo povo e apoiada numa concepção do mundo toda específica e na tradição, mas em permanente reelaboração mediante a redução ao seu contexto das contribuições da cultura 'erudita', porém mantendo sua identidade" (Cultura popular in Feira Nacional da Cultura Popular, SESC, 1976).

           As manifestações culturais só podem ser compreendidas na medida em que foram situadas em suas relações com o contexto socioeconomico e a estrutura sociocultural de que fazem parte. Florestan Fernandes nos diz que "o folclore abrange todos os elementos culturais que constituem soluções usuais e costumeiramente admitidas e esperadas dos membros de uma sociedade, transmitidas de geração a geração por meios informais". O fato folclórico é sempre atual e tradicional na medida que estabelece relações com um conjunto de elementos que o faz diferenciar dos outros.

           Tal qual a arte, os elementos culturais, nossas raízes, ganham novos significados de acordo com o contexto social. A linguagem, lendas, brinquedos, brincadeiras, festas, artesanato, profissões, crenças fazem parte de uma ação social organizada. De tal forma que a cultura acaba se constituindo um conjunto de sistemas de símbolos que articulam significados novos a cada reelaboração. Nesse processo, corre-se o risco de aspectos serem perdidos ou desaparecerem, ou então, que aconteça uma adaptação aglutinando novos elementos transformados e reconstruídos.

           A contextualização histórica sociocultural torna-se de vital importância tanto para a arte como para a cultura popular de tal forma que o resgate seja mantido e que o percurso evolutivo seja sujeito e predicado na educação e formação da sociedade como um todo. Quando relacionamos arte e cultura popular, essa abrangência se torna inevitável. Pois a educação em arte necessita da convivência com as obras de arte, de forma ampla. Essa convivência com os tipos de arte, os estilos, as épocas e os artistas é extremamente saudável e necessária. Por meio desse contato desenvolvemos nossa sensibilidade "sem querer impor-lhe o nosso gosto e nossos padrões subjetivos marcados historicamente pela época e pelo lugar em que vivemos bem como pela classe social a que pertencemos". Apreciar e sentir, e depois analisar e contextualizar nos fornece o conhecimento da linguagem de cada arte, a cultura que gerou a obra, seus estilos. Vejamos alguns momentos significativos na arte.

           Quando resgatamos os costumes e a cultura popular no Brasil antigo, deparamos com os registros dos artistas holandeses que vieram ao Brasil no século XVII entre 1637 e 1644 (data da volta para a Holanda de João Maurício de Nassau). As obras pintadas por Post na região do Recife, por exemplo, transmitem o sentimento de admiração pela nossa terra e nossa.

           Já no século XIX, um fato político influenciou diretamente na produção artística: a transferência da corte portuguesa para o Brasil (1808) e a elevação da colônia a Reino Unido e sede do governo metropolitano. Consequentemente uma das medidas mais significativas, a Missão Artística Francesa, redirecionam a produção artística no Brasil. Debret e todos os outros integrantes estão aqui para instalar o ensino das artes e ofícios. E finalmente a sede da Academia Imperial de Belas Artes, inspirada nos princípios do neoclassicismo europeu, é inaugurada em 1826. Cursos, exposições, pinacoteca, prêmios de viagem foram instituídos, e causaram grande impulso aos nossos mestres acadêmicos. Músicos e pintores são incentivados a produzir cada vez mais. Vítor Meireles, Pedro Américo até Almeida Júnior, e tantos outros. Com a Proclamação da República, ocorre a Reforma do Ensino, em 1890, e a Academia Imperial é transformada em Escola Nacional de Belas Artes, berço de grandes nomes como Portinari.

           O século XX inicia-se com amostras de Lasar Segall e Malfatti, culminando com a Semana de Arte Moderna, realizada entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Seus desdobramentos são uma avalanche de manifestos: "os dois de Oswald de Andrade, os mais importantes, sobre a Poesia Pau-Brasil, 1924, e o Antropofágico, 1928, o da arquitetura funcionalista, de Gregori Warchavchik, 1925, o dos mineiros (Aos Céticos, 1925), o dos pernambucanos, 1926, e o do Grupo Anta (Nhengaçu Verde-Amarelo, 1929), entre muitos outros, sem esquecer o da revista Klaxon, que é de 1922. Mas não foi só: em 1924, acompanhado do poeta suíço Blaise Cendrars, o grupo modernista viajou a Minas, onde Tarsila iria descobrir as cores de fundo de baú, caipiras. Em 1928, Mário publica Macunaíma, Tarsila pinta telas definitivas como Abaporu, 1928, e Antropofagia, 1929, Di Cavalcanti, Rego Monteiro e Goeldi produziram outras tantas pinturas e gravuras de muita personalidade. Foi, portanto, uma década de polêmicas, provocações, invenções, brigas estéticas, enfim, uma farra que parecia inesgotável, levando Mário a afirmar que os oito anos que se seguiram à "festa" do Teatro Municipal foram "a maior orgia intelectual que a história artística registra". Mas este comportamento "destrutivo" deve ser entendido em seu sentido correto, vale dizer, como um esforço simultâneo de aggiornamento e de redescoberta de nossas raízes culturais." (In Enciclopédia Itaú Cultural).

           Nos anos 50 e 60, a Bienal priorizou a abstração. O impacto das representações estrangeiras criou espaços para correntes abstracionistas ligadas inicialmente ao construtivismo, que desembocaram no concretismo em São Paulo e no neoconcretismo no Rio de Janeiro. (Op.cit.)

           A temática popular esteve presente nas produções: desde os holandeses e os acadêmicos registrando cenas do cotidiano e costumes antigos, até os modernistas, os abstratos e neoconcretos de tal forma que as nossas raízes estão indelevelmente registradas na beleza de nossa arte.



Parágrafo Aberto



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Nereide Schilaro Santa Rosa
é pedagoga, arte-educadora, escritora de livros infanto-juvenis
direcionados à cultura e as artes no Brasil, entre eles, as coleções
Crianças Famosas (Callis), Arte e Raizes (Moderna), História da Arte Brasileira para crianças (Edições Pinakotheke), Arte de Olhar (Scipione).




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« Escrever sobre arte e artistas para crianças é fascinante, possibilita a discussão sobre a vida, sobre a liberdade e sobre a busca. Porque arte é tudo isso e mais. Entender, aprender e fazer Arte é descobrir a si mesmo. »