no Espaço Educativo Raimundo Matos de Leão
Para que esta afirmação se torne uma realidade, acreditamos que é através do espaço educativo que se possa efetivamente dar uma contribuição no sentido de possibilitar o acesso à arte a uma grande maioria de crianças e jovens. Sendo a escola o primeiro espaço formal onde se dá o desenvolvimento de cidadãos, nada melhor que por aí se dê o contato sistematizado com o universo artístico e suas linguagens: artes visuais, teatro, dança, música e literatura. Contudo, o que se percebe é que o ensino da arte está relegado ao segundo plano, ou é encarado como mera atividade de lazer e recreação. Desde o profissional contratado, muitas vezes tendo que lidar com os conteúdos das linguagens de forma polivalente, até o pequeno número de horas destinadas ao ensino das linguagens artísticas, a expansão de que nos fala a professora Ana Mae Barbosa se torna canhestra, quase sempre inexistente.
Este quadro vem reforçar a postura inadequada de que o contato com o universo mágico da arte é importante, mas desnecessário. Esta contradição vem sendo objeto de reflexão e prática por parte dos arte-educadores, interessados em reverter a situação em favor de uma escola que valorize os aspectos educativos contidos no universo da arte. Daí a nossa preocupação com a formação de profissionais que vão exercer as funções na formação e orientação de crianças e de jovens. Diretores de escola, coordenadores e professores devem estar preparados para entender a arte como ramo do conhecimento em mesmo pé de igualdade que as outras disciplinas dos currículos escolares. Reconhecendo não só a necessidade da arte, mas a sua capacidade transformadora, os educadores estarão contribuindo para que o acesso a ela seja um direito do homem. Aceitar que o fazer artístico e a fruição estética contribuem para o desenvolvimento de crianças e de jovens é ter a certeza da capacidade que eles tem de ampliar o seu potencial cognitivo e assim conceber e olhar o mundo de modos diferentes. Esta postura deve estar internalizada nos educadores, a fim de que a prática pedagógica tenha coerência, possibilitando ao educando conhecer o seu repertório cultural e entrar em contato com outras referências, sem que haja a imposição de uma forma de conhecimento sobre outra, sem dicotomia entre reflexão e prática. O ensino da arte deve estar em consonância com a contemporaneidade. A sala de aula deve ser um espelho do atelier do artista ou do laboratório do cientista. Neles são desenvolvidas pesquisas, técnicas são criadas e recriadas, e o processo criador toma forma de maneira viva, dinâmica. A pesquisa e a construção do conhecimento é um valor tanto para o educador quanto para o educando, rompendo com a relação sujeito/objeto do ensino tradicional. Este processo poderá ser desafiador. Delimite-se o ponto de partida e o ponto de chegada será resultante da experimentação. Dessa forma, o ensino da arte estará intimamente ligado ao interesse de quem aprende. Esta maneira de propor o ensino da arte rompe barreiras de exclusão, visto que a prática educativa está embasada não no talento ou no dom, mas na capacidade de experienciar de cada um. Dessa forma, estimula-se os educandos a se arriscarem
A concepção de arte no espaço implica numa expansão do conceito de cultura, ou seja, toda e qualquer produção e as maneiras de conceber e organizar a vida social são levadas em consideração. Cada grupo inserido nestes processos configura-se pelos seus valores e sentidos, e são atores na construção e transmissão dos mesmos. A cultura está em permanente transformação, ampliando-se e possibilitando ações que valorizam a produção e a transmissão do conhecimento. Cabe então negar a divisão entre teoria e prática, entre razão e percepção, ou seja, toda fragmentação ou compartimentalização da vivência e do conhecimento. Este processo pedagógico busca a dinâmica entre o sentir, o pensar e o agir. Promove a interação entre saber e prática relacionados à história, às sociedades e às culturas, possibilitando uma relação ensino/aprendizagem de forma efetiva, a partir de experiências vividas, múltiplas e diversas. Considera-se também nesta proposta a vertente lúdica como processo e resultado, como conteúdo e forma. É necessário que se pense o lúdico na sua essencialidade, conforme nos fala o professor Edmir Perroti:
De que forma a escola pode considerar na sua programação vivências onde o lúdico essencial esteja presente? Reconhecendo a arte como ramo do conhecimento, contendo em si um universo de componentes pedagógicos. Os educadores poderão abrir espaços para manifestações que possibilitam o trabalho com a diferença, o exercício da imaginação, a auto-expressão, a descoberta e a invenção, novas experiências perceptivas, experimentação da pluralidade, multiplicidade e diversidade de valores, sentido e intenções. Um programa educacional não pode tornar a arte num elemento decorativo e festeiro. A arte valoriza a organização do mundo da criança e do jovem, sua auto-compreensão, assim como o relacionamento com o outro e com o seu meio. Assim contextualizamos o trabalho na vertente do lúdico e do fazer, com a ação mais significante do que os resultados, ou seja, não se propõe atividades que não levam a nada. Se pensarmos num projeto e no seu processo, cada etapa apresentará resultados que poderá se tornar ou não um outro projeto. Os resultados dos processos podem ser uma etapa ou sua finalização em espetáculos teatrais, coreográficos, musicais, exposições, mostra, performances etc. .
Entender e estimular o ensino da arte nesta perspectiva tornará a escola um espaço vivo, produtor de um conhecimento novo, revelador, que aponta para a transformação. Pensemos numa educação estética a partir das reflexões de João Francisco Duarte Jr.
A interação entre a concepção de arte e a concepção de educação encaminha-se na confluência do que conhecemos como arte-educação, conceito este que aponta para o entendimento de uma questão mais ampla que é a arte no espaço educativo: um projeto pedagógico com uma prática em arte. Destacamos a questão, tendo em vista que nenhuma outra disciplina tem necessidade de uma ênfase na sua nomenclatura quando da inclusão numa proposta pedagógica. Para melhor compreensão da afirmativa, exemplificamos da seguinte forma: não existe a necessidade de nomear geografia-educação, biologia-educação, português-educação. A esse respeito, Ana Mae Barbosa faz a seguinte consideração:
Estas considerações a respeito do ensino da arte no espaço formal da educação nos leva a refletir agora sobre as propostas desenvolvidas nos espaços informais onde a arte vem ocupando o seu lugar de forma a garantir uma real experiência por parte das crianças e dos jovens atendidos. Ao coordenarmos o Programa Clube da Turma da ex-
O projeto desenvolvido pelas unidades do Programa Clube da Turma se realizava através de práticas e dinâmicas correspondentes com as concepções de arte e de educação adotados como linhas mestras da proposta pedagógica da Secretaria. Trabalhava arte como pesquisa visual, sonora, corporal e verbal. Envolvia experiência, discussão e reflexão, vinculadas à visão contemporânea da arte, do conhecimento e da produção criativa, vistas como históricas, temporais e culturais. Através do fazer, do apreciar e do contextualizar, crianças e jovens abriam espaços para novas possibilidades na arte, almejando novas possibilidades de vida. Este projeto não se apoiava em técnicas, mas no crescimento de processos criadores nas linguagens artísticas, considerando que a técnica não deve ser um recurso pré-existente à pesquisa e ao fazer; não é algo que deva ser necessariamente aprendido para que se possa, posteriormente, executar alguma coisa. Técnicas são constantemente criadas e reinventadas, possibilitando a criação e o crescimento. Dessa maneira, os processos criadores dos educandos tornavam-se diferenciados e variados, sendo acompanhados pelos professores de arte através da observação e anotação de cada etapa, verificando-se interrupções, retomadas, acréscimos, desvios, novos caminhos, continuidade, descontinuidade, escolha, seleção, ordenação. Cada processo desencandeia outros processos, tendo como norte o desenvolvimento progressivo da criação pessoal, estimulado pelas interações siginificativas entre educados e educadores.
É na ação dos arte-educadores que podemos reverter o quadro e tornar o ensino da arte uma prática siginificante para quem dela participa. Através de investimentos na formação e na qualificação de profissionais é que a arte deixará de ser mero apêndice pedagógico de outras disciplinas, ou um meio utilizado para organização de festas. Nada contra a festa, pelo contrário. Uma proposta centrada na arte não pode deixar de lado o seu aspecto festeiro, lúdico, mágico. Nesse sentido, o evento deve ser pensado como momento de criação estética, articulado com os elementos específicos inerentes às linguagens artísticas. Assim, os eventos que reproduzem eventos convencionais, pré-estruturados pelos adultos e desvinculados das crianças, devem ser evitados em favor dos eventos elaborados e modificados em parceria com educadores e educandos, mantendo-se a intensidade do processo e a novidade dos resultados. A ênfase dada ao trabalho do arte-educador não isenta o conjunto da escola da responsabilidade de modificar a prática do ensino de arte, e com isto promover a educação estética em sua totalidade. Uma proposta pedagógica em arte, por melhor que seja, não se sustenta se não contar com profissionais bem formados, que tenham uma visão humanista e um maior conhecimento de arte, básicos para a sua qualificação. Com um profissional destes, as receitas serão deixadas de lado e o trabalho dar-se-á de forma instigante, privilegiando-se a descoberta dos códigos e signos da arte e de sua trajetória através dos tempos. Cabe aos educadores redirecionar a sua atenção no sentido de fazer com que a arte ocupe seu espaço na escola.
O ensino de arte, hoje, é uma área do saber, uma disciplina com origem, história, questões e metodologia. Assim como em outros ramos do conhecimento, não há uma homogeneidade entre as abordagens nesta área. Talvez apenas nos pressupostos mais abrangentes. Abordagens diversas e práticas diferenciadas estão sendo trabalhadas por profissionais interessados no assunto. Podemos identificar relações com alguma concepção de arte, filosofia, pedagogia nas bases de cada uma. O ensino da arte tem crescido no Brasil, passando por diversas etapas de compreensão. Bibliografia, experiências, documentação, exposição tem sido produzidas ao longo dos anos. Questões são levantadas, postulados são revistos. Encontros, seminários e simpósios são promovidos, tendo como princípios que o entendimento da arte no espaço educativo passa pelo conhecimento da sua história: origens, propostas, criação de escolas, inserção nas leis de diretrizes e bases, nas universidades e suas relações com a história do país. É conhecer pensadores, teorias, abordagens, propostas. Identificar seus principais temas: fazer espontâneo, aprendizado de técnicas, história da arte, polivalência, arte tradicional, popular,
|